Quem não decide, também decide.
Carta Aberta ao Empresário(a).
Olá, empresário(a).
Acordei cedo em São Paulo. Primeira manhã da viagem, café na mão, o corpo ainda no fuso de Portugal.
Antes de começar o dia, liguei pra casa. Lá já passava do meio-dia, e a Joana virou a câmera pra Duda, que brincava no chão da sala depois do almoço.
Ela tinha na mão um daqueles brinquedos de encaixar peça no buraco certo. E ficou ali, na telinha do meu celular, tentando enfiar o triângulo no quadrado. Não entrava. Virava, tentava de novo, não entrava. Jogava pro lado, pegava outra, errava outra vez. E nada daquilo a incomodava. Nenhum peso, nenhuma vergonha, nenhuma trava. Errava, decidia de novo, seguia.
Eu fiquei ali, com o café esfriando na mão, a um oceano de distância, só vendo aquilo pela tela. E pensei que, em algum ponto da vida, a gente perde isso.
Porque eu, empresário(a), sou o cara que já passou meses com uma decisão parada em cima da mesa. Sabia que precisava tomar. Sabia mais ou menos qual era o caminho. E mesmo assim adiei, empurrei pra próxima semana, esperei "a hora certa" que nunca chega. Não por falta de informação. Por medo de decidir errado.
Cresci vendo isso de perto. Meu pai era comerciante, e tinha decisões que ele segurava por meses na cabeça. Trocar de ponto, demitir alguém que não rendia, cortar um produto que só dava prejuízo. Ele sabia. A gente percebia em casa que ele sabia. Mas a decisão ficava ali, parada, pesando. E o negócio sangrava enquanto ele esperava ter certeza.
E aqui chegamos no ponto principal desse e-mail.
A Duda me lembrou de uma coisa que o empresário adulto esquece: não decidir também é uma decisão. E, na maioria das vezes, é a pior delas.
Quando você adia a conversa difícil com aquele sócio, você decidiu. Decidiu deixar o problema crescer. Quando você segura por seis meses a demissão de alguém que todo mundo na empresa sabe que precisa sair, você decidiu. Decidiu pagar caro pra não enfrentar. Quando você não mexe na precificação com medo de perder cliente, você decidiu. Decidiu continuar trabalhando de graça.
A decisão errada tem um custo, e ele aparece rápido. Você erra, sente, corrige. Já a decisão adiada tem um custo que não aparece. Ele só corrói, em silêncio, mês após mês, até virar parte da paisagem da sua empresa.
A verdade é essa: o empresário raramente quebra por uma decisão ruim que tomou. Ele definha por uma fileira de decisões que nunca teve coragem de tomar.
A criança não trava porque ela ainda não aprendeu que errar dói. O adulto trava porque aprendeu demais. E aí prefere o conforto de não escolher, sem perceber que o muro em que ele se senta também desaba.
Eu te pergunto hoje, com honestidade:
- Qual decisão está parada na sua mesa há mais tempo do que deveria, e você sabe exatamente qual é?
- Quanto você já pagou, em dinheiro, energia e noite mal dormida, só pra não ter que encarar essa escolha?
- Se não fosse o medo de errar, você já saberia o que fazer?
Essa semana, faz uma coisa só. Escolhe a decisão que está te assombrando há mais tempo. Não a mais urgente, a mais adiada. Escreve ela numa linha. Embaixo, escreve o que vai acontecer com a sua empresa daqui a um ano se ela continuar exatamente onde está.
Provavelmente o papel vai te dizer o que você já sabia. E aí você decide. Pode até decidir errado. Mas decidir errado e corrigir é movimento. Ficar parado é só o erro em câmera lenta.
A Duda vai errar mil encaixes até acertar. E vai acertar justamente porque não tem medo de tentar. Em algum momento a gente troca essa coragem pela ilusão de que esperar é mais seguro.
Não existe mágica, existe método. E método de decisão começa por aceitar que a indecisão não te protege de nada. Ela só adia a conta, com juros.
Um forte abraço para você e uma excelente semana.
Até domingo que vem.
Sobre o autor
Fundador da Brave Educação
Leonardo Leão é empresário, investidor e fundador da Brave Educação, onde já ajudou mais de 5.000 empresas a transformar faturamento em caixa, lucro e capital de giro. Autor das newsletters Fórmula de Lucro (sextas, 18h) e Carta Aberta (domingos, 20h).